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Do Cafofo do Dezena - Crônica Viva - O Caminho
São João da Boa Vista|cultura|30/04 09:25|171 visualizações
Chegamos a pensar que o homem de nada mais precisaria. A cidade de Águas da Prata nasceu nos limites da divisa com São João da Boa Vista.
 
Hoje, espraia-se quase além dela. Transpondo o córrego, entramos em terras da cidade vizinha. Do outro lado da estância, a escarpa de pedras detém as construções. Serras permitem o serpear de rios que despencam em cachoeiras. Águas minerais brotam de entre fissuras na rocha. Bairros e fazendas salpicam pelas encostas e vales até a divisa com Minas Gerais.
 
Das ruas da cidade, observamos a Igreja de Nossa Senhora de Lourdes no alto da colina. A gruta e o Cristo Redentor atraem-nos o olhar. O Caminho da Fé, não como uma ponte ligando a igreja matriz a Aparecida, mas como purificação, é uma das faces do caminhar. No final da jornada, Henrique falava baixo de sua experiência. Sentado nas escadarias do Santuário, próximo ao rio Paraíba do Sul, mochila ao lado da perna cansada, tênis sujo de barro, relembrava passagens e provações. Talvez a Serra da Luminosa tenha sido o maior desafio físico. Após um chuvisqueiro fino, teve, em alguns trechos, de se arrastar pela lama para vencer os seis quilômetros de aclive. Extenuado, chegou à pousada e deixou a água quente do chuveiro escorrer a lama de seu corpo. Deitou-se na cama e só abriu os olhos ao alvorecer, para mais um dia de caminhada. Contou-me da ajuda de Carlos, trabalhador rural, que o incentivou a prosseguir.
 
Virando o rosto para a gigantesca porta, olhar oblíquo, deixou as lágrimas umedecerem o rosto. Trouxe as mãos, que pendiam cansadas, até os olhos e deixou escapar um leve sorriso. Não, não era de fé que falava não era de santos e igrejas, de belezas e serras. Era humano. Tinha, agora, a certeza de que cada passo pertencia a ele e que o caminho que terminara, ele mesmo construiu.
 
Agora, não era mais o Caminho da Fé, era o caminho do Henrique. As suas pedras, a sua forma de sentir a brisa, os pensamentos nas noites de solidão. Chorei como uma criança sob o Cinturão de Órion, certa noite, confessou. Pela primeira vez, olhou para mim com intensidade. Pediu-me a mão para ajudá-lo a se levantar. O toque do carrilhão, os degraus da escada, a porta.
 
Fernando Dezena
 
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