Do Cafofo do Dezena - Crônica Viva - A Sétima Diferença


Antes de pegar meu lugar, vou à banca de jornais próximo à estação Trianon. Uns pedem dinheiro, outros oferecem bugigangas pela avenida. Desvio-me. Compro palavras cruzadas "médias". As difíceis são muito difíceis e as fáceis, facílimas. Não que me ocupe muito com elas. Foco no jogo das sete diferenças.
Domingo passado, o inusitado. Rapidamente encontrei seis e a sétima não aparecia. Li o enunciado para confirmar quantas eram: sete. Deixei descansar por um instante, enquanto reparava na menina só, em uma mesa de canto, com o celular. Faltava-lhe o par.
Voltei ao jogo: três nuvens, três nuvens duas bolas, duas bolas quatro risquinhos, quatro risquinhos. Passei para a Luciane. Olhou um tempão. Desistiu. Chamei o maître que, pelo tempo que frequentamos o local, tornou-se nosso amigo.
Nisso eu sou bom, vangloriou-se Robertinho.
Olhou, olhou e nada. Correu para acudir uma mesa e deixou o desafio para a outra atendente. Também desistiu. O livrinho ficou esquecido sobre a mesa. A menina procurava algo na bolsa. Comentei com a Luciane que, talvez, a editora tivesse errado. Talvez só existissem seis diferenças. Ela pegou o caderninho.
Se você achar, lhe dou quinhentos reais, afirmei desafiador.
Seus olhos brilharam. Confesso que foi o tempo de abrir na página e gritar triunfante.
Achei!
Destampou uma gargalhada que chamou a atenção de todos. Eufórica, mostrou-me a bolinha que faltava no rótulo da garrafa. Todos vieram confirmar. Olhei enviesado para a menina que continuou alheia à descoberta. Sorri amarelo. Arrumei uma dívida enquanto a formiga caminhava no sanduíche.
 
Fernando Dezena            
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